| Quarta, 19 de Novembro de 2008 |
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A história dos 100 livre - curiosidades olímpicas
Não houve Jogos Olímpicos em 1940 e 1944, devido a Segunda Guerra Mundial. E, além de não terem sidos disputados os Jogos, a natação perdeu ainda mais: Dr. Ferenc Csík, vencedor dos 100 livre em 1936, morreu no dia 29 de março de 1945 em um bombardeio aéreo, enquanto oferecia primeiros socorros a um homem ferido. As Olimpíadas foram retomadas em Londres/1948. Os japoneses não puderam fazer frente aos americanos, já que, com o país em reconstrução, não disputaram os Jogos. O recordista mundial dos 100 livre era o americano Alan Ford com 55.4. Ford, em 18 de março de 1944, entrou para a história ao se tornar a primeira pessoa a nadar as 100 jardas abaixo dos 50 segundos. Em Londres, o francês Alex Jany liderava após os 50 metros, mas foi ultrapassado nos últimos 25 metros por Ford, o húngaro Géza Kádas e o americano Walter Ris. Nos últimos 10 metros, Ris veio por trás dos outros e ganhou a prova. Os Jogos de 1952 foram realizados em Helsinque, Dinamarca. Clarke Scholes dos EUA e Hiroshi Suzuki do Japão chegaram na frente na final com o mesmo tempo (57.4), mas a vitória foi dada ao americano. A decisão não deixou os japoneses nem um pouco contentes, mas eram tempos de paz após a Segunda Grande Guerra e não houve maiores discussões. Scholes havia quebrado o recorde olímpico com 57.1 nas eliminatórias. Depois do domínio dos americanos e japoneses, uma nova era estava nascendo na aurora olímpica. Comandados pelos excepcionais Jon Henricks, Dawn Fraser e Murray Rose, os australianos dominaram completamente as provas de livre nos Jogos Olímpicos de Melbourne/1956, vencendo todas as provas do estilo, tanto no masculino quanto no feminino. Preparação e planejamento detalhados levaram os australianos a brilharem em casa. Jon Henricks era o maior favorito nos 100 livre desde Johnny Weissmuller. Sua vitória na final foi a 56ª em 57 provas em três anos. Quando perguntado do segredo do seu sucesso, Henricks, que era tão mal-humorado quanto sua amiga e companheira campeã olímpica Dawn Fraser, uma vez respondeu: “Está vendo a danada desta piscina? Pois bem, se você quiser chegar ao topo, salte dentro dela e comece a nadar. Faça isso por três, quatro ou cinco anos. Cada vez que pensar em parar ouvirá uma bronca de seu treinador. Se pegar uma dor de ouvido louca por causa destas águas tropicais, continue a nadar do mesmo jeito. Raspe a cabeça e fique parecendo um zumbi. É para diminuir a resistência da água. Pela mesma razão depile as pernas. Quando receber um convite para ir a uma festa, responda que já tem um compromisso inadiável no dia seguinte. É mentira, claro, já que seu único compromisso de todos os dias é com a piscina, indo e vindo, indo e vindo, indo e vindo. Quando terminar, já é tempo de fazer um pouco de musculação, ou talvez de ir dormir enquanto o seu treinador vai jogar golfe ou pescar”. Henricks foi o primeiro nadador a raspar a cabeça e o corpo antes de uma prova. Seu pai o estimulava a isso, já que, para ele, Jon era “peludo como um bode”. A final dos 100 livre em Roma/1960 foi marcada por desfalques e confusão. Dois favoritos não estavam presentes na final. Uma apendicite repentina seis dias antes da Seletiva Olímpica Americana não deixou que Jeff Farrell se classificasse como um dos três representantes americanos, e o defensor do título Jon Henricks foi eliminado nas semifinais, resultado de problemas intestinais desenvolvidos no caminho da Austrália a Roma. O brasileiro Manuel dos Santos liderava após a virada, mas o americano Lance Larson e o australiano John Devitt o ultrapassaram nos 70 metros e terminaram visualmente empatados. Devitt parabenizou Larson e deixou a piscina desapontado. “Cumprimentei Lance (Larson) e saí da piscina disposto a esquecer tudo aquilo”, contou depois Devitt, convencido de que o americano havia vencido. A confusão começou quando os juízes se reuniram para discutir o veredicto. Dos três juízes aos quais cabia a tarefa de apontar o vencedor, dois votaram em Devitt e um em Larson. Mas os juízes que apontavam o segundo colocado também votaram em 2-1 para Devitt. Ou seja, três votos diziam que Devitt havia ganho e os outros três eram em favor de Larson. Quando os cronometristas foram consultados, verificou-se que Larson havia feito 55.1 e Devitt 55.2. O cronômetro eletrônico não-oficial também mostrava a vitória de Larson – 55.10 contra 55.16. Apesar das evidências, o juiz chefe, Hans Runströmer, da Alemanha, cuja palavra não tinha peso sobre nenhuma decisão de acordo com as regras oficiais, ordenou que o tempo de Larson fosse alterado para 55.2 e deu a vitória a Devitt. Quatro anos de protestos não foram suficientes para alterar o resultado. Em 29 de junho de 1960, Lance Larson se tornou o primeiro nadador a quebrar a barreira do minuto nos 100 borboleta. Em 1964, os Jogos foram realizados em Tóquio, e o recordista mundial era o francês Alain Gottvalles, com 52.9. Este, entretanto, não se apresentou bem ao longo dos dias da competição. Os tempos mais rápidos das séries eliminatórias, 54.0 e 53.9, foram marcados pelo americano Gary Ilman, com seu compatriota Don Schollander logo atrás com 54.3 e 54.0. Na final, no entanto, Ilman se atrapalhou com a marola após a virada e perdeu a concentração. Schollander terminou forte, passou o britânico Robert McGregor nos últimos cinco metros e venceu por cerca de seis polegadas. Schollander, que nasceu em Charlott, North Carolina, e cresceu e, Lake Oswego, Oregon, era treinado por George Haines em Santa Clara, Califórnia. Em Tóquio, Schollander, 18, se tornou o primeiro nadador a conquistar quatro medalhas de ouro em uma Olimpíada. Apesar da diferença entre os dois primeiros colocados ter sido ínfima para a cronometragem (53.4 de Schollander x 53.5 de McGgregor), não houve discussões. Uma controvérsia, no entanto, foi gerada na premiação do terceiro lugar. Os juízes não sabiam para quem dar a medalha de bronze, Ilman ou o alemão Hans-Joachim Klein. Ambos haviam feito o mesmo tempo. Os japoneses tinham providenciado cronometragem eletrônica, e, apesar de não ser utilizada oficialmente, foi consultada pelos juízes. Foi verificado que Ilman e Klein haviam parado o relógio no mesmo centésimo de segundo, mas que Klein havia terminado um milésimo de segundo antes. Depois de 35 minutos de consultas, os juízes decidiram que, mesmo a cronometragem eletrônica sendo não-oficial, havia evidências suficientes para dar o terceiro lugar a Klein. Dois dias depois da final dos 100 livre, no revezamento 4x100 livre, os americanos bateram o recorde mundial. O nadador Stephen Clark não havia se classificado para nenhuma prova individual na Seletiva Olímpica Americana. Mas, abrindo o revezamento para os EUA, igualou o recorde mundial de 52.9 de Alain Gottvalles. O incidente deu a ele o direito a fechar o 4x100 medley americano, tirando a primazia do campeão dos 100 livre Don Schollander – e, de quebra, tirando a provável quinta medalha de ouro de Schollander. As Olimpíadas de 1968 foram as primeiras (e até hoje as únicas) a serem realizadas em um país latino-americano: na Cidade do México. O americano Zac Zorn havia igualado o recorde mundial do compatriota Ken Walsh nos 100 livre na Seletiva Olímpica Americana, com 52.6, e os americanos chegaram ao México como favoritos. Faltou apenas avisar o australiano Michael Wenden, 18. Wenden havia chegado ao México com esperanças de chegar à final, mas quando fez 53.0 em uma competição prévia, começou a acreditar que tinha chance de uma medalha de bronze. O tempo de Wenden nas eliminatórias foi 53.6, sete décimos de segundo mais rápido que qualquer um, e seu tempo de 52.9 nas semifinais foi meio segundo melhor que a concorrência. Na final, Zac Zorn, enfraquecido por uma doença de uma semana, passou no gás e virou os primeiros 50 metros um corpo à frente dos outros nadadores. Mas não agüentou e caiu para o último lugar. Wenden, por outro lado, nadou a prova de sua vida para ganhar o ouro e bater o recorde mundial (52.2). Em terceiro lugar, chegava o americano Mark Spitz. A medalha de bronze para Spitz em 1968 foi uma decepção para ele, que havia prometido seis medalhas de ouro. Em 1972, nos Jogos Olímpicos de Munique, Spitz continuava fanfarrão, mas quatro anos de treinamento exaustivo o levaram ao seu auge. O recorde mundial estava em seu poder (51.47). Spitz tinha três objetivos nos Jogos de Munique. O primeiro era provar que era melhor que Don Schollander e se tornar o primeiro nadador a ganhar cinco ouros em uma Olimpíada. O segundo era se tornar o primeiro atleta, em qualquer esporte, a vencer seis ouros em uma edição dos Jogos. O terceiro era fazer ainda melhor e conquistar sete ouros. Deste objetivo final, Mark Spitz tinha dúvidas no dia 1º de setembro. Ele já tinha cinco medalhas de ouro (200 livre, 100 e 200 borboleta, 4x100 e 4x200 livre). A sexta parecia assegurada, já que a última prova dos Jogos, o revezamento 4x100 medley, era uma barbada para os EUA. Mas Spitz não estava tão certo da vitória nos 100 livre. Seu compatriota Jerry Heidenreich vinha nadando muito bem e era considerado uma séria ameaça. O pai de Spitz, Arnold, convenceu seu filho desde cedo que “nadar não é tudo: vencer é”. Para Mark Spitz, era melhor disputar quatro provas e vencer todas do que nadar sete provas e vencer “apenas” seis. Ganhando sua sexta medalha de ouro, bateria um recorde. Apenas quatro atletas antes dele tinham cinco vitórias em uma Olimpíada: o ginasta americano Anton Heida (1904), o esgrimista italiano Nado Nedi, o atirador americano Willis Lee (1920) e o corredor finlandês Paavo Nurmi (1924). Com seis de ouro num mesmo ano, não havia ninguém. Quando ouviu os rumores de que Spitz pensava em desistir dos 100 livre, seu antigo técnico, Scherman Chavoor, que estava em Munique como técnico do time feminino dos EUA, correu para vê-lo. Chavoor usou todos os argumentos para convencê-lo a ir para a água. “Você pode ter cinco ou sete medalhas, mas não seis. Porque se não nadar os 100, não vai disputar o revezamento 4x100 também”. E prosseguiu, atingindo o ponto fraco de Spitz: “Se desistir agora, vão dizer que você está com medo do Jerry Heidenreich, que você é um galinha”. Ser chamado de galinha era demais para Spitz. As eliminatórias foram nadadas na manhã do dia 2 de setembro, e as semifinais sete horas mais tarde. Em ambas as provas Spitz segurou e terminou atrás do campeão Michael Wenden e também de Jerry Heidenreich. Na final, na noite seguinte, Spitz surpreendeu Heidenreich ao abandonar sua tática usual e passar no gás, ao invés de poupar forças para a segunda metade da prova, como ele comumente fazia. Spitz tinha uma clara liderança na virada. Com 15 jardas para o final, Spitz perdeu o ritmo repentinamente, mas se recuperou e tocou a borda meia braçada à frente de Heidenreich. O medalhista de bronze Vladimir Bure era pai de Pavel Bure, astro do hóquei no gelo. O Bure mais novo liderou o time russo de hóquei nos Jogos Olímpicos de Inverno de 1998. Por Daniel Takata |